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BIG BAND SERTANEJA

Por Kalor Pacheco / Imagens de Hélder Tavares

A memória que esta reportagem busca, ao investigar os vieses documental e mercadológico da orquestra arcoverdense, remonta ao dia 28 de outubro de 1958. Foi no Esporte Clube de Arcoverde o primeiro baile da Orquestra Arcoverdense de Ritmos Americanos – a Super Oara. A oportunidade do show surgiu após uma apresentação no Carnaval da cidade, quando da primeira vez que os músicos da Banda Municipal tocaram sob a regência do músico carnaibense Egerton Verçosa de Amaral, posteriormente mais conhecido como o Maestro Beto da Oara. O mesmo conta que o concerto-teste fora “um sucesso”.
Da apresentação nascida no coração do Centro de Arcoverde, se projetou a Super Oara. A trajetória da orquestra é marcada por se apresentar, em sua maioria, em datas comemorativas; bem como festas de aniversário (físico ou jurídico, por assim dizer), casamentos, formaturas e outras festas de caráter mais tradicional. “Arcoverde tem uma orquestra que nenhuma terra tem. Quando ela se apresenta nos grandes salões da sociedade, ou nos lugares públicos, ninguém consegue ficar parado. É uma orquestra universal de repertório de músicas românticas que embalam as pessoas, tocam no coração, mexem com a saudade e criam um clima de nostalgia incomensurável”, escreveu o colunista social João Alberto, um dos principais incentivadores das idas e vindas da Oara à capital pernambucana.
Entre os principais auto-adjetivos da orquestra, está um perfil “muito profissional”. Exemplo: seguindo o exemplo de seu pai Beto, em cima do palco, o atual maestro da Super Oara, Elaque Amaral, só bebe café ou água e, segundo o mesmo, os músicos também. Explicado o título que João Alberto utilizou em sua matéria no Caderno 2 do Jornal o Portal do Sertão: “Beto da Oara: Um exemplo de profissionalismo que conquistou o mundo.”
Maestro Beto recorda palavras do amigo João Alberto, seguidas aos shows da orquestra fora do Brasil. “Não é mais Orquestra Arcoverdense; agora é internacional”, remendou o título que, segundo ele, estampou a página do jornal Diário de Pernambuco, publicado depois da passagem da Super Oara nas cidades de Tóquio, Atenas e Pais, respectivas capitais dos países Japão, Grécia e França. O arranjador e maestro norte-americano Ray Coniff também já dividiu o palco com os músicos arcoverdenses, em antológica apresentação no Sport Clube do Recife.
Embora não mencionado em nenhuma das entrevistas com o fundador e herdeiros da Super Oara, consta que é do músico e intérprete Sebatião Caranguejo boa parte dos créditos do sucesso da orquestra arcoverdense, até meados dos anos 1980. “A Orquestra, logo no seu início, teve um crooner extraordinário, Sebastião Caranguejo, natural de Afogados da Ingazeira, que ajudou a projetá-la no Estado inteiro. Ele era um show à parte dentro da Orquestra, graças à beleza de sua voz e a capacidade que tinha de montar repertório. Infelizmente morreu cedo, vítima de complicações cardíacas”, disse o deputado Júlio Cavalcanti, em discurso solene na Assembléia Legislativa de Pernambuco, em 2011, quando a Super Oara foi homenageada em virtude dos seus 53 anos de existência.
É um trabalho de conclusão de curso – o famigerado TCC – da Autarquia de Ensino Superior de Arcoverde (Aesa) a fonte de consulta, de precariedade acadêmica, da Orquestra Super Oara sugerida por seu fundador. Antes ele. Uma orquestra que completa, em outubro de 2015, 57 anos de sua fundação; e que por conseguinte tem sua importância, não pode passar esquecida nos anais da história da música pernambucana.
“Super Oara: Uma História de Sucesso” – eis o título propagandístico escolhido pela então formanda, hoje licenciada em História, Cláudia Freitas Baltazar para a sua pesquisa. O trabalho nos foi entregue por Egerton Verçosa do Amaral, conhecido por Seu Beto da Oara (ou Beto do Trombone), no dia de nossa primeira entrevista. “Você pode ver tudo aí”, setenciou orgulhoso.
A problemática do estudo universitário é a seguinte: “Em que medida a população de Arcoverde valoriza a Oara?” Entre as respostas, colhidas em doze questionários destinados a sujeitos distintos (mas de aparência não-aleatória), identifica-se a memória afetiva dos arcoverdenses em relação a Super Oara. A maioria conhece desde a infância, ao menos de ouvir falar, mas nem todos foram aos shows – o que reflete o atual momento do mercado de música de baile, explorado melhor na entrevista com Elaque Amaral, filho de Beto da Oara e atual admistrador da orquestra.
Além dos próprios conterrâneos, moradores e ex-moradores de cidades vizinhas a Arcoverde se lembram das festas municipais e quermesse dos seus respectivos municípios – praticamente todos, mas sobretudo os do Sertão, como Sertânia, São José do Egito, Passira e circuvizinhanças – tendo a Super Oara como atração. “Era natural das festas mais pomposas, chiques, da cidade do interior contar com o show da Super Oara. Tinha muito isso de baile, das músicas que todo mundo sabe cantar e ninguém resiste a dançar”, diz o estudante passirense Artur Bastos, que atualmente reside no Recife.

Beto da Oara na varanda de sua casa do Centro de Arcoverde
|ENSAIO DE BAILE PRESO

35º Baile Maçônico do Clube Rotary. Mas o que é que se sabe disso? O fotógrafo esperava no Clube Democrático um salão imperial, talvez pisos e escadas bem Titanic, como algo que enobreceria as suas lentes; ao invés disso, o que percebemos eram as as mesas e cadeiras plásticas, talvez amarelas-Skol que bebiam na festa, mas não dava pra confirmar. Cada um dos assentos estava coberto com fazendas brancas e cetins coloridos de uma cor (VER NA FOTO); num estilo, por assim dizer, “a la casamento na granja” situada à Ladeira do Alemão, bairro de Santa Mônica, Camaragibe, na Região Metropolitana do Recife.
Era o nosso primeiro encontro com os músicos. A Super Oara representa o ganha-pão de todos eles, provavelmente com famílias à espera; uns mais criativos nos arranjos; mas dificilmente com um projeto autoral paralelo – a julgar por Elaque Amaral, atual crooner da Suer Oara, com direito a foto no ônibus tipo Wesley Safadão gospel e galego e tudo.
Meia hora antes, ainda no quarto-e-banheiro – e há tempos existe nome pomposo pra isso: suíte – eu havia deixado o vestido de noiva olindense de lado por uma calça marisa ok azul, uma regata justa ok branca e ~A~ jaqueta jeans. ~A~ jaqueta jeans. No frio de Arcoverde à noite ­- clima já prenunciado por seu Beto na entrevista primeira no bairro dos Torrões, na Zona Oeste do Recife -, ~Aquele~ casaco era uma épecie escudo indispensável, e eu o usaria mesmo e ainda mais se eu estivesse com o tal vestido de noiva costas nuas. No frio de Arcoverde à noite, agasalhada com o casaco e com o uísque e com os cigarros; na calçada em frente ao Denocrático, eu via os convidados e convidadas passarem por mim com seus paletós resistentes e vestidos reluzentes (alguns comprado em Recife ou São Paulo) e cordiais “boas noites”.
Salto alto, pernas torneadas, vestido idem, maquiada, ecovada. Havia também uma única mulher no palco: a cantora Gil Velozo era, na realidade, vocalista da dissidente Oásis – ou seria Ohara? – e estava no posto por recomendação (mais monarquista que musical) de Beto da Oara. A ideia era que a sua presença como vocalista aliviasse mais a barra do filho dele, Elaque, recém-acidentado no ônibus com os músicos da banda que também estavan no palco (mesmo em face aos óbitos dos que vinham na van que colidiu com o veículo que trazia a Oara de um show na manhã do mesmo sábado, 22 de agosto de 2015, na PE-218, em Brejão, Agreste de Pernambuco).
Apesar de tudo, parecia mais instigadíssimo – talvez por conta do café numa canequinha estilo Jô Soares que tomou madrugada a dentro. Enquanto tocava hits como “Volare” ou “Hit The Road Jack”, dediclando o teclado e deslizando no iPad, o crooner cumprimentava o público com pessoalidade, e tomava para si a interpretação praticamente todas as letras de músicas. Inclusive as de Reginaldo Rossi (Deixa de Banca) ou Frank Sinatra (New York, New York) , anasalando semelhantemente a sua voz.
“Decadence avec elegance” e por qual motivo enxerguei certa decadência naquele espelho? As pessoas do e o Sertão vivem dentro de cada um de nós. Como diria Guimarães “o sertão é dentro da gente” Rosa? Sol é Sol. Astros estrelas à postos. Quem naquele salão não queria brilhar tanto quanto Elaque, com sua perna machucada mas seus olhos tão azuis quanto a piscina plástica de sua casa?
O Salão do Baile tinha casais rodopiando desde a primeira música, e mais e mais. Cruzavam uns pés nos outros, sem dar descanso a pista, compassadamente por hits do bolero, salsa, brega e outros gêneros da música popular brasileira e latina. O crooner estava orgulhoso, vez ou outra dizia o nome de alguém que estava no público – a repórter inclusa: “Alô Karol!”. Subitamente, mudava o repertório, convencido de sua autoridade; mas distante de se dar conta dos seus gestos caricaturais de Maestro que fazia ao ordenar cada troca de faixa.
Elaque entregou o palco como se fosse de bandeja: café da manhã servido na cama. Como diz o ditado, o filho de Beto da Oara criou a fama, mas quem ia deitar na cama era o sanfoneiro que estava chegando. Um banquete de bailarinos instigados oferecido para o cantador que teria a honra e o desafio de sustentar o show.
Em metade da pista, era cada um que se amostrasse mais que o outro, bailando blasés. A competição acontecia até mesmo entre o par. Tinha uma coisa de todo mundo mostrar vitalidade; tinha tamanha pose; tinha um certo costume; tinha algo de comparação. A grande maioria dos convidados da festa da maçonaria eram da idealizada melhor idade. Esposas donas-de-casa acompanhadas de seus maridos – tal como a gentil Dona Marli, esposa de Beto e mãe de Elaque. Como ela, uma minoria não dançava; mas havia quem dançasse com suas companheiras mais apáticas e apáticos do que se fosse com estranhos.
Mas durante o Forró… regido pelo tão familiar acordeon nordestino – no centro, a frente e acima de tudo e todos. Como se fosse um fole de lareira, a sanfona imperava absoluta: dois pra lá e dois pra cá. Fogueiras se acendiam entre os umbigos de todos os casais. Louváveis eram uns aqueles que inspiravam romance dos tornozelos aos quadris, dos ombros às mãos arqueadas. Eram poucos os apaixonados, mas muitos porque na intimidade da sintonia preenchiam o salão como se lá nem estivessem. Assim, de “Ana Maria” (Santanna) e “Vem Morena” (Luiz Gonzaga) não havia quem desejasse ser apenas espectador. Assim, mais pares se encontravam na pista (a reportagem inclusa).
O vestido de noiva olindense fez falta nos passinhos e meias voltas. Mas estávamos empolgados demais para que as calças jeans atrapalhassem: o casaco e a câmera já haviam sido abandonados desde o filé com fritas e a longneck Quinta do Morgado. Subimos para frente e para trás, esbarrando suingados como num cumprimento aos outros pares, descendo de um lado para o outro. Forró no Sertão é Forró: “Lá no meu pé de serra / Deixei ficar meu coração / Ai, que saudades tenho / Eu vou voltar pro meu sertão.”
Foi quando o garçom – o que inicialmente resistiu em nos servir; não sei porquê a agulha (nós) alfineta o palheiro (nós-não) – recomendou que parássemos de dançar. Recomendar é apenas modo de dizer, já que não tínhamos mais a dança como opção. Um de nós quedou paralizado, como se diz, estupefato com o assalto. O outro questionou o motivo e provocou.

– “Mas parar de dançar por quê?”, perguntei incrédula.
– “Porque você não está nos trajes adequados”, respondeu o funcionário do buffet, reproduzindo provavelmente um pedido de um dos organizadores ou convidados da festa – dentre os quais, estava até o prefeito do município de Arcoverde.
– “Ah, entendi. E se eu voltar com um vestido de noiva olindense? Poderei dançar?”, trepliquei.
O garçom ficou em silêncio, supreso com o rebate, pensando que talvez não tivesse ouvido direito, mas fez que sim.
– “E meu cabelo? Está bom assim?”, questionei ainda, sobre se meu coque lambido seria permitido na festa ou teria de mudar junto com os jeans – e voltar de black power (que era o que eu devia ter feito desde o começo). Continuei: – “A maquiagem? A sandália? A bolsa tá boa?” Estava fatalmente indignada, mas pensei: “coitado, não tinha nada a ver com aquela intervenção toda; apenas cumpria ordens moralistas.”

“A música humaniza os corações e desembrutece as pessoas” – a citação do erudito pernambucano Maestro Cussy de Almeida já foi utilizada em discurso solene de homenagem a Super Oara. No baile Rotary, estávamos todos dançando, tocando; bebendo nem todos. Nem todos desembruteceram. Nem a epiderme permite barreiras na música. Não existem secções, divisões, eu e Outro, consciência sequer. Não deveriam existir secções, divisões, eu e Outro, consciência sequer. A música deve deslocar não somente em espaço físico, mas metafísico. Nem devia existir Não.

O crooner Elaque Amaral - filho de Beto da Oara - e, ao fundo, o ônibus que transporta os músicos da Super Oara
| ENTREVISTA ELAQUE AMARAL

Elaque Amaral é filho de Seu Beto da Oara e tocou pela primeira vez com a orquestra aos 11 anos de idade. Desde os anos 2000, conta ele, assumiu a Super Oara. Nos últimos anos, com o advento da internet e sua consequente exposição pública nas redes sociais, ele deu, literalmente, a sua cara ao projeto criado por seu pai. Nossa reportagem visitou a casa de Elaque (onde vive com a sua esposa e seus três filhos), após um sábado intenso ­na vida do músico – iniciado com o acidente envolvendo o ônibus da Oara (no qual há um gigantesco retrato do mesmo, além de sua assinatura, nas faixadas frontais e laterais, então amassadas).

– Como foi a sua iniciação na música, desde o ambiente familiar?

ELAQUE AMARAL – O começo é um berço musical. Por causa do meu pai (Beto da Oara), músico e instrumentista de sopro trombone e vara. A nossa família é de dez irmãos: oito homens e duas mulheres. O mais velho, vocalista, começou já cantando com meu pai. O que tem dois anos a menos que ele, é baterista, já tocando na Orquestra. Comecei a tocar trompete. Aprendi a teoria com meu irmão, Betinho, tocando sax e sanfona. Aos 10 anos de idade. Meu pai era fiscal da (Secretaria da) Fazenda e, no final de semana, ele viajava com a banda. Com 11 anos, em 1981, eu já estava na Oara. Eu e Betinho. Naquela época (que não existia conselho tutelar), nós eramos a atração da Super Oara em alguns momentos que tocávamos. Comecei com papai, em 1981, até o anos 2000; e fiquei tomando conta, já com 21 anos de idade. Sempre tive uma vida muito precoce, até de tomar conta da orquestra.

– Houve essa passada de bastão de pai pra filho – Seu Beto da Oara e você, Elaque, que hoje em dia toma a orquestra para si. O que vem pela frente nesse legado familiar da Super Oara?

ELAQUE – A renovação. Eu, na verdade, tenho quatro filhos – e são três meninas e um menino. Tive duas filhas, doido para ter um filho homem para ensinar esse legado. Meu filho, Pedro, no começo ensinei bateria para me acompanhar. Mas ele é um cara estudioso e está estudando. A mais nova, Isabela, gosta muito de cantar; mas eu confesso que não queria que ela seguisse não, porquê é muito sofrido e tratando-se de mulher, de menina, é muito complicado. E não sei se um neto meu pode me substituir.

– A Super Oara já tem uns 57 anos de existência e já passou por momentos distintos do comportamento cultural da sociedade pernambucana. Qual é a configuração do momento atual, em relação ao passado, principalmente no que diz respeito à cidade de Arcoverde?

ELAQUE – A gente sobrevivia a dez, quinze anos atrás. Quando a gente fazia a formatura antes, tinha a orquestra que abria e os pagodes que acompanhavam. Hoje em dia, mudou. A gente perdeu os espaços para bandas de forró, DJs – isso sem querer desmerecer o momento da cultura do País. As bandas de axé que não fazem mais sucesso… elas migraram pra cá – Netinho, Ricardo Chaves, Timbalada, Harmonia do Samba. Hoje, falando de hoje, mais as bandas de forró.
Antes havia aquilo de colocar os pais para dançarem até chegar o momento da valsa. Até formaturas de terceiro ano – como ja fiz Damas, Boa Viagem -, tudo isso mudou porque os meninos chegaram com outras cabeças, ouvindo outras coisas. Devo salientar que as pessoas hoje estão vendo muita apologia às bebidas. Acho que as pessoas estão bebendo mais e isso vai ficando muito distante. Procuramos fazer um repertório muito mais cantado, para ouvir a letra.

– O que determina a seleção de repertório, show a show, da Super OARA?

ELAQUE – Varia quando se trata de formatura, de casamento. Varia por conta da faixa etária. E também quando se trata de festa de padroeiro, que é na rua, a gente toca as músicas mais simples para as pessoas. Músicas mais contemporâneas. Evito cantar muitas músicas americanas (mas têm lugares que canto muito, me satisfaço bastante). Nesse mês de junho eu toco só sanfona.

– Quais são essas “músicas mais contemporâneas”?

ELAQUE – Elas vão chegando de acordo com a mídia. Agora foi que estourou a música sertaneja, a exemplo do rapaz que faleceu, (o cantor) Cristiano Araújo, “Maus Bocados” e voltou a tocar com força. Mas as músicas novas também chegam para o repertório através dos meus filhos e, de geração em geração, eles vão me deixando inteirado de tudo.

– Existe alguma música autoral no repertório da Super Oara?

ELAQUE – Eu tenho algumas músicas, mas não consegui gravar todas. Tocamos no projeto Dançando na Rua, que acontecia no Bairro do Recife. A música fala bem do Recife e quem fez o arranjo foi o Maestro Duda.

– Quais são as canções que você mais gosta de interpretar?

ELAQUE – Eu gosto muito de cantar e, hoje em dia, estou cantando sozinho na orquestra (depois das redes sociais, eu voltei todas as imagens só para mim). É uma facilidade que eu tenho de cantar grave, médio, agudo, e até feminino. Às vezes, interpreto Louis Armstrong; é uma forma de chamar a atenção das pessoas. Ou quando eu vou cantar Bee Gees ou Fred Mercury, é uma forma de chamar a atenção das pessoas. Sou da época de baile que os cantores cantavam tudo.

– Há antecedência na escolha do setlits, ou tem muito de improviso, indo de acordo com a animação do público?

ELAQUE – Tem vez que falta cinco minutos pra gente tocar, a Oara já está arrumada no palco, e eu não sei qual é a música que vou começar, que vou abrir. Poucas vezes, eu sei que vou fazer. Como toco a maioria das vezes em medley, uma atrás da outras, faço algumas passagens, mudanças entre uma e outra. Mas eu costumo manter a introdução original, alguns arranjos. Por isso não mudo muito. Mudo mais pelo meio, ou no final, entrando no refrão.
Faço o que me vem na cabeça e não sigo repertórios. Dez minutos antes de começar a festa. Às vezes, acho que sou agraciado por uma força maior. Algo que me inspira. E na primeira música que começa, eu saio seguindo; e quando eu começo a cantar e “vai descendo a ladeira” ou às vezes vai aprumado e também dá certo. É a temperatura que decide o repertório de 90% das festas. As pessoas quando vão ouvir a Super Oara sabem que vão pra dançar.

Beto com o trombone a frente da Super Oara
| SEU BETO DA OARA

Não foi por dona Maria Auxiliadora, carinhosamente apelidada como Marli, na época com 18 anos de idade que Beto (ele, 25) voltou do Rio de Janeiro para Carnaíba, Sertão de Pernambuco, terra natal de ambos – para em seguida ir morar em Arcoverde. De Arcoverde, sim, voltou à Carnaíba para buscá-la. Se não foi por ela, foi pelo que o “homem de verdade” do interior ainda costuma chamar de honra. “Me custou muito caro, pra mostrar que era homem”, disse ele, brincando com ares de vencido sobre ter prometido voltar para casar.
Se não foi pela honra com H; considerando que o regresso estava nos planos, foi por algo maior: a criação, há quase 60 anos, da orquestra Super Oara, cuja história se entrelaça às vicissitudes do mercado (e) da arte no Estado, a partir do prisma da música de baile (conforme pode ser visto na entrevista pingue-pongue e no próprio texto de apresentação da Oara).
Egerton, Egéria, Egídio, Everton, Egione, Emerson, Eriberto, Elaque, Elson e Eric. Oito dos dez filhos de Marli e Beto ­- todos músicos, exceto as duas mulheres – se enveredaram à frente e por trás dos palcos do legado musical e familiar que é a Super Oara. Mas a genética melódica vem de muito antes.
Os acordes do violão de sua mãe, foram a primeira aproximação de Beto com a música. Mas o convívio dele com as canções transpassou as paredes de casa, e do próprio muro, chegando e caminhando pelas ruas, na forma dos tradicionais cortejos românticos do século passado que antecederam as indiretas do Facebook do século XXI. Ele recorda bem da época: “Era seresta a torto e a direito em Carnaíba! Era acompanhada por violão cavaquinho, essas coisas. Final de Semana, noites, madrugadas. Hoje não existe mais isso, mas naquele tempo…”
“Depois de 15 anos, que comcei a ensaiar o trombone, já entendia mais o que era fazer a seresta. Muitas vezes a gente faz pra acordar a namorada. E depois tinha que correr, que o pai da menina chegava com uma espingarda e a mesma coisa. Um grupo ou outro, dois ou três, os saudosos.” Entre os pais que tiveram suas janelas assaltadas pelo som galanteador, estava o de dona Marli; segundo ele, “o véio era bravo que só o siri”.
Hoje, aos 82 anos, fiscal da Secretaria da Fazenda aposentado, Egerton Verçosa de Amaral (nome de batismo de Beto) tem muitas músicas e histórias para contar. Voltou do Rio de Janeiro, onde passou “uma temporada trabalhando como (como músico?) na boate de Claudionor Cruz”, para ser nomeado como servidor público estadual de Pernambuco. “Me telefonaram para que eu viesse porque tinha uma oportunidade de emprego pra mim no Estado. Voltei às pressas e, quando cheguei, fui direto ao Recife, para tomar posse. Fui nomeado Auditor Fiscal da Secretaria Fazenda em Carnaíba”, recorda-se.
Seguido da proposta do trabalho, anos depois, um convite para montar e comandar uma orquestra na cidade de Arcoverde, Sertão do Estado de Pernambuco. “Vim tocar um Carnaval na cidade de Arcoverde enxertando a orquestra de Serra Talhada. E aí, na cidade de Arcoverde, o Coletor Estadual era o presidente do o Esporte Clube de Arcoverde”, conta beto, remedando as palavras do seu chefe: “Beto, você trabalha na Fazenda. Não quer se transferir para Arcoverde para organizar uma orquestra aqui?” De acordo com o músico, em dias de festa, o município de Arcoverde só podia contar com a Orquestra de Serra Talhada, que muitas vezes estava ocupada.
Então arrumou uma transferência de trabalho para Arcoverde. Iria encontrar com a Banda Municipal que havia lá, ainda modesta e pouco profissional, mas que viria a se tornar a Super Oara. Foi ver o que se podia fazer. Chegou de trem, bateu a poeira da roupa e tomou banho. Rumou para a sede da banda, com o pretexto de ensaiar na banda municipal. “Mas antes mesmo de eu chegar a cidade de Acorverde, a notícia se espalhou na cidade que eu vinha aqui pra formar a orquestra, pois a finalidade era essa”, revela.
“Já existia uma banda de música – mas não era Orquestra – se arrastando por lá. O maestro da banda era um sargento aposentado, velho e cangaceiro”, se lembra Beto, que precisou passar por esse imbróglio até assumir o posto que desejava musicalmente. Beto chegou na sede e se apresentou:

– Boa noite ­- disse Beto, percebendo os músicos incomodados com sua presença, “enciumados”, segundo ele.
– O senhor veio pra cá transferido? – interrogou um dos músicos.
– Venho ser Fiscal – respondeu Beto.
– Mas existe um boato aí que o senhor está vindo pra cá para montar uma orquestra – disse o músico, com ares de inquisidor – Eu quero dizer ao senhor que nós não precisamos de maestro aqui. O maestro aqui é aquele ali, é o meu tio. E ele é quem manda aqui, viu?
– Não. Eu sou apenas um pequeno músico – apaziguou Beto, fazendo a política da boa vizinhança – Eu vim apenas para colaborar com vocês. Eu sou Fiscal, a minha função é outra.

Passarinho na Gaiola, quando canta é de tristeza
(…)
Passarinho que vive longe do ninho, seu prazer não existe
https://soundcloud.com/adiel-luna/passarinho-na-gaiola

De acordo com Beto – que concedeu essa primeira entrevista na varanda da sua casa no bairro dos Torrões, Zona Oeste do Recife, ao som dos passarinhos cantando engaiolados, imitando a saudosa natureza sertaneja (ouvir áudio do SoundCloud https://soundcloud.com/umapinoia/beto-da-oara-entrevista) -, ele foi lá para ver como era a situação da banda. “Comecei a ensaiar com a banda, notando um atraso danado”, conta ele. O que Beto queria mesmo era ver que músicos serviam aos seus planos de montar uma orquestra na cidade de Arcoverde.
Político que é (foi, posteriormente, vereador, vice-prefeito e prefeito de Arcoverde), a primeira apresentação não tardou a acontecer. Os diretores de Clubes já o conheciam desde o carnaval anterior, quando tocou com a Orquestra de Serra Talhada, mas agora Beto residia no município. “Um diretor mandou me chamar”, se lembra, e arremeda: “A gente vai fazer um carnaval aqui e tamos precisando de uma orquestra. Você tem condições de fazer uma orquestra? Tem onde buscar músicos?”
Foi em Carnaíba buscar reforços pois não podia, ainda, contar com os músicos da Banda Municipal de Arcoverde para empreitada da Folia de Momo pois “o maestro da banda era um sargento aposentado, velho e cangaceiro”. Não deu certo; os músicos não poderiam viajar para Arcoverde e Beto voltou de trem com as mãos abandando. Novamente bateu a poeira da roupa e, antes que pudesse admitir o fracasso – a frustração de não-mão-de-obra sonora para a realização de um show no Carnaval de Arcoverde, pois os músicos de Carnaíba já estavam comprometidos com o Carnaval de sua própria cidade – uma luz:

– Beto só você salva a situação da gente – disse um dos músicos da banda municipal de Arcoverde, assim que o músico chegou – O maestro botou uma proposta alta, o clube não aceitou e a gente está tudo desempregado, porque ele contratou uma orquestra lá do Recife. Você não tem condição de amparar a gente, não?
– Mas rapaz, eu tenho que voltar a Carnaíba para desfazer tudo – mentiu Beto, segundo ele, “para valorizar o negócio”.

Ele fez que foi; mas não. No dia seguinte, chamou todo mundo lá para assinar o contrato. Depois de muitos ensaios e alguns embates com maestro-sargento-cangaceiro, que resistiu à adesão, aconteceu Baile de Carnaval. “Um sucesso.” Depois disso, Beto conversou com os músicos sobre a vontade de montar uma orquestra, dizendo que já estava tudo arranjado, e fez o convite:

– Se vocês qiserem, eu vou fazer uma orquestra ­- disse Beto, após pagar o cachês dos músicos – Assumi o compromisso com o coletor e vou fazer. Se vocês não quiserem, eu vou buscar os músicos de Carnaíba.
– Mas tá doido, a gente vai ficar com você! – respondeu um, por todos os músicos.

No dia 28 de outubro de 1958, a Orquestra Arcoverdense de Ritmos Americanos fazia o seu primeiro baile, rodopiando vestidos e ritmando sapatos, no meio do salão do Esporte Clube de Arcoverde.