selo

 
 

A MÚSICA TRANSFORMA TERRITÓRIOS

Por Rodrigo Édipo / Imagens de Hélder Tavares

Você sabia que o lugar onde você está agora define o seu valor como cidadão? É notório que indivíduos gozam de oportunidades distintas segundo o espaço em que vivem ou frequentam, portanto, a possibilidade de ser mais ou menos cidadão está diretamente ligada a uma questão puramente territorial. Enquanto um determinado lugar pode ser a peça chave de uma condição de pobreza, um outro lugar, no mesmo momento histórico, pode vir a ser um facilitador de vidas. Logo no princípio e muito por conta do meu contato com Neris, o trabalho de pesquisa para essa reportagem me trouxe essa questão de forma muito clara e objetiva, pois não foi difícil perceber a importância do espaço ocupado pela Banda Firmino da Veiga (BFV), localizada no município de Paulista, como um oasis de boas possibilidades para crianças e jovens que, pisando em um terreno extremamente infértil devido ao desequilíbrio social nosso de cada dia, convivem diariamente com o fantasma de um futuro corrompido ou, simplesmente, impossível.

| SEXTA 11 DE SETEMBRO: COLÉGIO MUNICIPAL FIRMINO DA VEIGA

– Por que você está chorando?
– Eu coloquei ele no Conselho Tutelar
– Não entendi, poderia explicar melhor?
– Eu já não aguentava mais ele, esse menino não tinha rumo na vida…

Neste dia, Helder (Tavares) e eu acordamos cedinho para ver a apresentação da BFV na abertura dos Jogos Internos do Colégio Municipal José Firmino da Veiga e aproveitamos a oportunidade para conversar com alguns alunos e pais que estavam presentes na festa, que, diga-se de passagem, estava abarrotada de crianças correndo prá lá e pra cá e jovens e adultos mergulhados em selfies. Claudiane (43), mãe de Rodrigo (15) é a responsável pelo desabafo do diálogo acima. Ela estava ao meu lado, aguardando que eu finalizasse a entrevista com Rodrigo, porém não segurou muito tempo, se debruçou em soluços e lágrimas, e começou a apalavrar, “A banda transformou a vida do meu filho, Rodrigo só me dava desgosto”, discorre sem nenhum pudor sobre um passado recente, mesmo estando à frente do jovem que apenas olhava para chão em um gesto de consentimento misturado com um pouco de culpa.
Casos como o da mãe Claudiane e do filho Rodrigo são muito comuns na história da Banda Firmino da Veiga, projeto que trabalha a música através de uma perspectiva educacional. Como por exemplo a história de Deivid (30), que ingressou na BFV em 2001 e até hoje frequenta o grupo com o mesmo gás de um novato. “Antes de estudar música eu era um irresponsável, era influenciado por amigos e me envolvi com coisa errada, estava à margem mesmo como dizia o professor”, relembra com bom humor se referindo às palavras do maestro Flávio Cassimiro. Focar nos estudos foi a primeira grande exigência sentida por Deivid após ingressar na Banda Firmino da Veiga, pois ele já tinha sido reprovado cinco vezes a 5º série, hoje equivalente ao 6° ano.

2_Deividi
| O SOM QUE VAI NA ALMA

O caso de superação de Deivid é conhecidíssimo nos corredores da BFV e é um dos “favoritos” do professor Flávio Cassimiro, “Ele ia ser expulso do colégio, mas demos pra ele uma única opção: aprender música”, nos contou o maestro completando filosófico como de praxe, “Sabe por que? Porque o som vai na alma”. Nada tinha mexido tanto o coração de Deivid até então, o aluno já tinha trabalhado como garçon, pedreiro, vendedor de pastel e em cemitério “pintando catacumbas em Dia de Finados”, mas nunca tinha levado a sério nenhum dos trabalhos. Ao iniciar os estudos da música, o tempo que se dedicava à rua com os duvidosos amigos, foi substituído pelo estudo aficcionado do instrumento. O empenho rendeu ótimos frutos, “Tudo que tenho foi a música que me deu, hoje tenho minha casa, meu carro e um emprego”, conta vitorioso. Além das conquistas materiais, Deivid também conseguiu uma projeção no showbusiness, ao tocar com músicos consagrados como Siba, Nando Cordel e Maestro Ademir. Religioso, distribui os créditos a partir do espiritual, “A banda me ensinou a ter disciplina, respeito ao próximo. Agradeço a Deus primeiramente, e segundo por ter os professores (Flavio Cassimiro e Jozias Vasconcelos) em minha vida. Foi uma mudança da água para o vinho”, conclui.

| O CULTIVO DE UMA DÍVIDA ETERNA

Na pior parte da minha vida eles estiveram comigo.
Essa frase foi proferida ao telefone por um rapaz chamado Leonardo, 31 anos, também conhecido por Leo da Tuba, apelidado por conta do instrumento que toca. Filho ilustre da Banda Firmino da Veiga, Leo atualmente é integrante da atual banda do cantor e compositor pernambucano Siba Veloso. Foi na BFV que o músico, natural de Paulista (PE), recebeu um grande impulso para a sua vida, “Nos dois falecimentos que tive, da minha mãe e minha vó, os maestros sempre estiveram ao meu lado, foi um momento muito importante”, relembra emocionado.
Um dos alunos de maior destaque da história da Banda Firmino da Veiga, Leo da Tuba começou a carreira ainda criança tocando trombone, mas eis que um dia decide pegar uma tuba “pra tirar um som”. Pronto! Flagrado pelo maestro Flávio a partir desse dia foi praticamente proibido de tocar outro instrumento, “Cara, tu nunca mais vai tocar trombone, tu vai tocar agora é tuba!”, foi o que Flavio determinou para o futuro de Leo como músico, que no primeiro ano de tuba já ganhou prêmio de melhor tubista revelação em uma banda de fanfarra.
Com o bombástico sucesso da Banda Firmino da Veiga que arrastava troféus na maioria dos concursos, Leo começou a chamar atenção e circular cada vez mais com o seu trabalho. Foi então que veio o convite, em 2008, para ingressar na Orquestra Contemporânea de Olinda (OCO). O contato com os músicos olindenses o fez começar a frequentar orquestras de frevo, culminando em sua primeira viagem para tocar na Europa (França) e depois no Montreux Jazz Festival, o mais conhecido festival de música da Suíça. Nesta época, Leo ainda tocava na Banda Firmino da Veiga quando foi convidado para tocar com Siba e o projeto Fuloresta. Porém, anos depois, quando foi convidado para participar do Avante (2012), primeiro álbum solo de Siba, não teve mais condições de conciliar o cotidiano com as atividades da BFV, “A vida profissional não deixa mais com que eu faça parte da banda, mas eu tenho uma dívida eterna com eles”, admite com um certo tom de lamento. Dá pra imaginar o que ele sente, pois todos da BFV o colocam como símbolo de sucesso por ter alcançado com a música uma projeção internacional.
O músico leva os ensinamentos da Banda Firmino da Veiga para todo o palco que pisa no Brasil e no mundo, “Eles (os maestros) sempre me falavam que a gente não ia se apresentar, e sim tocar o que foi ensaiado. Por isso eu nunca fico nervoso”, fala em tom de confissão. Como de praxe, a história da Banda Firmino da Veiga com seus alunos não se resume apenas ao ensino da música, pois foi o maestro Flávio Cassimiro que conseguiu o primeiro emprego para Leo, na Banda Municipal de Paulista, “Comecei minha carreira profissional e o primeiro passo foram eles que deram”, relembra. Como forma de agradecimento, o músico se junta todo fim de ano com outros ex-alunos e promove uma cantata de Natal para os alunos do Colégio Municipal Firmino da Veiga, “Faço isso porque sei que a gente veio do nada, éramos pobres, e a banda foi um porto seguro para nós, lá aprendi tudo na prática. Aprendi a ser cidadão”, finaliza.

2_Claudiane (43), mãe de Rodrigo (15)
| ENQUANTO HOUVER VIDA, VIVEREI

Sobre vontade de desistir, negligência do poder público e reconhecimento para além da caixinha de música “Acredito que dentro de pouco tempo vai acabar”, falou para mim o maestro Flávio Cassimiro (52) sobre o futuro da Banda Firmino da Veiga (BFV). Não foi muito diferente quando – em outro momento – fiz a mesma pergunta para Jozias Vasconcelos (50), maestro mais antigo da banda e que ingressou na mesma com apenas 13 anos, “Você sabe que quando uma coisa acaba pra revigorar é difícil, né?”, achei taxativo e até um pouco ameaçador.
Bater um papo franco com esses dois guerreiros da resistência sobre a BFV é um processo de aprendizagem muito rico, mas não é uma tarefa fácil, porque se por um lado você é tomado por uma camada de discurso forte de inspiração e liberdade na luta por um mundo mais inclusivo e generoso, por outro é elementar perceber fragilidades que mesmo diante de pequenos avanços nas políticas públicas para o campo da cultura, observa-se ainda no Brasil, mais precisamente em Pernambuco, o uso dos mesmos modelos políticos excludentes e insustentáveis que, como de praxe, tem caído todo santo dia (ou dia santo?) como uma bigorna nas costas da população preta e pobre do nosso país. O que me deixa um pouco transtornado é que os maestros Flávio e Jozias, motores de existência da BFV, têm o poder de cura social nas mãos e contribuem há décadas para transformar diversas vidas e tudo o que mais querem é apenas continuar trabalhando em paz, sem grandes importunos e com um justo reconhecimento.
Não que tenha sido surpresa, mas durante a minha apuração me deparei com algumas dificuldades que são enfrentadas pela dupla, então decidi montar 05 perguntas capitais para ambos responderem separadamente com o objetivo de sentir a quantas anda a frequência cardíaca da Banda Firmino da Veiga. E diagnóstico é que – em ambos – os batimentos têm oscilado bastante.

– O que é a Banda Marcial Firmino da Veiga para você?

Flávio: Para mim é uma instituição que oferece a possibilidade de resgatar vidas através da arte. Historicamente temos tirado crianças e jovens do caminho errado e abrindo a perspectiva para uma vida melhor por conta do contato com a música. O importante para mim é que eu tenha condições de dar a oportunidade para que eles, independentes de virarem músicos profissionais ou não, possam viver melhor. Se um aluno decidir virar mesmo músico, maravilha, mas se encaminhar para uma outra profissão, não tem problema nenhum, ele será um médico que sabe tocar um instrumento ou um engenheiro que sabe tocar um instrumento. Eu sei que num momento de dificuldade, ele vai ter a música como um porto seguro, que vai mexer com a alma dele, que vai transformar a agonia, o incômodo, em uma coisa boa. Tenho aluno que é advogado, que toca pra caramba e é fantástico saber disso. O aprendizado da música faz melhorar as notas na escola e isso já é a arte contribuindo independente de virarem músicos profissionais ou não. Porque música serve como terapia também, por isso que a musicoterapia existe e é vivenciada por alguns médicos que musicalizam seus pacientes com sérios problemas psicológicos até que eles estejam curados e já fora de risco. Você viu (se referindo ao dia que visitei a escola) que está todo mundo satisfeito, os professores felizes, os pais felizes, as crianças felizes… a música faz isso.
Jozias: Faz parte da minha vida, entrei com 13 anos e em 1985 eu assumi a banda. Entrei na banda pra tocar e nela eu fui me especializando. Na época a banda era uma fanfarra, hoje a banda é marcial e está em um outro nível. Sobrevivemos hoje através do quadro municipal, porém hoje ela é pouco valorizada… às vezes dá vontade de chutar o balde e desistir, mas o que te prende é quando você vê a criançada querendo aprender. O que temos de recompensa é complicado, é difícil manter aquilo ali porque a gente precisa da manutenção das contas pra dar continuidade ao trabalho. Depois de 3 anos de trabalho que agora vamos receber da Prefeitura novos instrumentos (a banda está prestes a receber 54 novos instrumentos)… a escola Firmino não tem mais ensino médio, daí a banda teve que se readaptar pra atender a criançada, pois antes nós atendiamos apenas os jovens do ensino médio. O que eles (poder público) têm que entender é que precisamos investir nos estudantes a longo prazo, os resultados vão vir em 3, 5, 6 anos de trabalho.

– Fale um pouco do seu cotidiano na escola.

Flavio: Eu já estou pra me aposentar, falta uns quatro anos para que isso aconteça, mas vou ser bem sincero, teve uma época que cheguei até a pedir licença, mas terminei desistindo. Só em ver aquela meninada me abraçando quando chego na escola, dando carinho, é impossível não me entregar, não me doar para que eu possa vê-los crescer… mesmo a escola não merecendo… (pausa longa) vou te falar uma coisa, às vezes eu tiro dinheiro até do meu bolso. Às vezes falta merenda e eu chego junto de Jozias pra que a gente dê um jeito, porque a escola não pode parar, mas se a escola parar temos que continuar com as aulas da banda… chamamos os pais, explicamos o momento de crise e todo mundo veste a camisa e vai pra cima! A gente avança, dá condições para a escola… os pais das crianças topam essa conosco porque eles vêem a diferença. A gente tira carteira de identidade, título de eleitor, a gente pega um aluno e arruma o primeiro emprego. Até isso a gente faz dentro da escola. Os pais normalmente são separados, vivem na decadência, e a gente chega junto e diz que está lá pra ajudar, porque queremos que os filhos deles cresçam, desenvolvam. Às vezes falo pra alguns: “Agora eu sou seu pai!”, quando mando estudar e eles não obedecem. Mas tem uns que perdemos para o mundo e chego até a me emocionar, perco eles pra vida.
Jozias: Rapaz, meu cotidiano ali é de segunda a sexta, das 9h às 16h30 e também ao sábado das 14h às 18h. Meu dia a dia é estar enfurnado na escola, junto da turmada, ensaiando o tempo todo, pra mim é muito satisfatório, porque eu gosto do que faço, não faço nada contra a minha vontade. Eu me sinto bem ensinando, é muito prazeroso ver uma criança que não sabe tocar nada e, através de muito esforço e ensaio, ver ela sair tocando. Você ensina, ensina, ensina e ela aprende mesmo! A minha relação com Cristina Bandeira (diretora da escola) é muito boa, ela não interfere no trabalho que a gente faz e está sempre acompanhando e comunicando a nota dos alunos. Sou chamado pra conversar sobre o desempenho dos alunos e paticipo de reuniões de pais e mestres pra saber o que está acontecendo. Pra estar dentro da banda tem que estar bem na escola… sou um professor que não escondo nada dos pais, lógico que a tendência é você ter um lado protetor, mas não podemos ser assim, temos que mostrar para os pais qual a conduta das crianças no dia a dia da banda. É uma relação de muita confiança e isso reflete lá fora. Quando nossos alunos vão fazer conservatório, eles já são vistos com outros olhos, porque já sabem que o menino tem uma bagagem diferente, por isso que tem muitos ex-alunos que estão hoje ganhando a vida com música em outros lugares.

– Fale mais sobre a importância da banda para as comunidades que atende.

Flavio: Olha, Rodrigo… eu vou ser bem sincero com você… a Escola Firmino da Veiga precisa da banda. Não importa as forças contrárias a isso, entende? A banda é importante para a comunidade, a banda é muito importante para o bairro. Quando a banda começa a tocar os pais nas suas casas já sabem que os filhos estão bem abrigado, sabe? Atingimos muitas comunidades no entorno, temos alunos de Maranguape 1, 2, da comunidade de mutirão… temos aluno até do Tururu no Janga, e também em Pau Amarelo. Ou seja, tem aluno que sai de muito longe para ter aula conosco, somente porque em suas comunidades não tem banda nas escolas. Mora pertinho de uma escola mas tem que andar isso tudo pra poder vir tocar aqui na escola do município… é isso, mas a gente vai vencendo.
Jozias: Acho que a banda tem uma importância muito grande para os pais das crianças, são eles que procuram mais a gente. Eles vêem a banda como um refúgio de aprendizado, pois eles querem que as crianças tenham uma função ou até um hobby mesmo… de lá pode sair engenheiro, enfermeiro, médico… não precisa sair músico profissional. Para mim que não mudou muita coisa, gostaria que as pessoas nos vissem como profissionais, financeiramente falando, o pessoal só olha para a banda com a exigência de tudo estar pronto para o desfile de 7 de setembro e pronto, acabou a banda. Só que a gente trabalha de janeiro a janeiro, sabe? Por isso digo que na minha vida nada mudou, entramos professor e saímos professor, não recebemos aumento, nem nada… não temos reconhecimento, a verdade é que ninguém vive de tapinha nas costas. As pessoas acham que banda é uma caixinha de música, que é só abrir e ela funciona perfeitamente. A banda do Firmino só sobrevive porque eu e Flávio estamos ali, é mesmo que estar navegando em um oceano sem remo. eu prefiro mesmo ficar quieto na minha, se é vontade deles que acabe, tudo bem… mas enquanto eu estiver lá, a banda não acaba.

– Como está a Banda Marcial Firmino da Veiga hoje?

Flavio: Ela existe porque nem eu nem Jozias abre mão, senão a banda já teria acabado, não existiria mais. A gente não vê interesse que a banda continue, então ela existe por puro esforço, por vontade, por desejo, quando um dia eu vier a… (pausa)… me separar disso tudo… (pausa)… o meu desejo é que a Prefeitura tome conta dessa banda. Ganhamos muitos títulos, aparecemos na Globo e sendo bem sincero, parece que não fizemos nada… para muitos não vale nada tudo que a gente construiu levando o nome do município de Paulista para fora. Eu vejo dois caras maluco (se referindo a ele próprio e Jozias) que vibram e querem ver crescer uma banda que muda a vida de jovens e não chega ninguém da cidade pra dizer um “muito obrigado por ter feito isso por nós” (fala endereçada para a gestão pública municipal). Isso daí nos deixa triste, enfraquece… Paulista não reconhece, ninguém percebe, ninguém dá valor. Falta respeito, mas a gente não desiste.
Jozias: Eu tô muito satisfeito com o resultado da banda hoje por conta da nova geração. Os novos alunos mudaram o perfil da banda, porque antes éramos viciados em concurso e isso era muito perigoso pra gente. A banda investia tudo nisso e quando tínhamos que fazer uma apresentação que não valia nenhum prêmio, muitos componentes nem apareciam pra tocar. Hoje eu prefiro que a banda continue apenas formando músicos, estudantes, cidadãos do que estar participando de concursos, correndo atrás de troféu de plástico que não vale nada. De que adianta ser campeão hoje e ninguém lembrar amanhã? São resultados efêmeros… estou com uma sala abarrotada de troféus. A nova geração não sabe o que é concurso, quando eu chamo para apresentação estão todos ali, todos os componentes se interessam… antigamente os componentes se interessavam só por concurso ou uma viagem pra fora do estado. Tivemos essa decisão de parar de competir no dia que fomos convidados para fazer uma apresentação para a Prefeitura e de 100 alunos que tinhamos, só apareceram 25 músicos no dia. Então a gente teve que correr atrás de músicos de outras orquestras pra formar o time. Não vivo nessa utopia, isso é uma mentira, quando isso aconteceu sabíamos que era a hora de tomar uma decisão. E tomamos. Hoje temos uma nova filosofia, queremos que os pais fiquem satisfeitos, quero que amanhã os alunos apontem pra mim e diga com orgulho: “Vai lá o meu professor…”.

– Como você vê o futuro a Banda Marcial Firmino da Veiga?

Flavio: Acredito que dentro de pouco tempo vai acabar. E a Escola Firmino da Veiga vai ser alguma coisa, outra coisa, menos o Firmino da Veiga. Não tendo aluno, não temos mais a banda marcial. Já está tendo universidade dentro da Escola, outras faculdades… as crianças mesmo só tem turma pela manhã, em pouco tempo não vai ter mais escola pra elas nem nada. Mas eu vou ser sincero, eu vou lutar enquanto Deus me der força, se não tiver mais escola eu vou lutar para a banda se tornar patrimônio do município. Se tudo acabar vou lá na câmara dos vereadores para que a Banda Firmino da Veiga seja da Sec. de Educação, independente da existência ou não da escola, tornar lei esse patrimônio. Vou levar professores, padres, tudo…
Jozias: Rapaz, eu digo que vai acabar. Daqui a 5 anos Flávio vai se aposentar e vai deixar a banda… enquanto a gente está ali dá pra sustentar, se entrar uma gestão pública atuante, a banda continua.. senão acaba. Você sabe que quando uma coisa acaba pra revigorar é difícil, né? Agora se música fosse um pré-requisito de disciplina escolar, seria outra coisa. Pra muitos a música é um hobby, uma coisa extra que não é visto como algo profissional, não é feito medicina, engenharia… e quem estuda música e entra na universidade, vira professor. Ou seja, se o nosso país não obedecer uma cultura musical, não adianta de nada. A banda Firmino um dia vai acabar e ficará na história apenas pra quem tocou, participou, quem fez parte… nem nos livros de história vai estar. Quanto ao que Flávio fala sobre o tombamento da banda, acho que é necessário que tenhamos uma câmara dos vereadores toda ao nosso lado, mas cada diz que passa temos vereadores que enxergam a música e nada a mesma coisa. Com essa juventude de hoje no poder é muito difícil que isso aconteça.

3_Neris
| “O MELHOR LABORATÓRIO DA MINHA VIDA”

Ex-aluna da Banda Firmino da Veiga defende a ferro e fogo os anos que mudaram a sua vida e hoje utiliza a banda como objeto de estudo pedagógico.

– Ei menino, aqui em cima! Arrudeia!

Essa foi a primeira vez que escutei a voz de Neris Rodrigues, que estava com a cabeça e parte do corpo do lado de fora da janela de uma casa de primeiro andar, com um sorriso largo, meio alvoroçada e com os cachos esvoaçantes. Recém separada de um relacionamento que começou na adolescência e que floresceu em meio à prática musical, ela hoje tem 29 anos, mora em uma casa simples e aconchegante em Maranguape 1, bairro da cidade de Paulista-PE, e por 11 anos foi aluna “do Firmino”, como ela mesma gosta de chamar a Banda Firmino Veiga (BFV), motivo pelo qual me fez visitá-la.
Você que nunca foi recebido com o imperativo de “arrudeia” não sabe o que está perdendo. Para mim, o ato de se comunicar é emoção e o máximo que estivermos próximos a ela, sem a frieza dos números e a racionalidade das palavras escolhidas, estamos perto da verdade. Emoção essa que eu já tinha sido presenteado pela orgânica arquitetura local típica dos bairros populares ao me deparar com um campinho de futebol de barrinha localizado atrás da casa da minha entrevistada.
Devaneio de quem sabe a diferença que faz um espaço de jogo com acesso gratuito para servir de inspiração para uma criançada que na fantasia de se tornar um Messi, aprende na prática um importante valor social: a cooperação. É essa tal cooperação que, nesse caso através da música, desata os nós existenciais das vidas que circulam e já circularam pela Banda Firmino da Veiga e tem na trombonista Neris uma das beneficiadas. A propósito, o primeiro emprego da musicista foi viabilizado pela própria Firmino, em um projeto do maestro Flávio Cassimiro que fazia a ponte para que os alunos pudessem trabalhar na banda da cidade de Paulista, a Banda Municipal Aristides Borges.
As experiências na BFV foram para toda a vida e ficaram realmente marcadas nas recordações de Neris. “No Firmino a gente tinha que ler e na mesma hora tocar. Não tinha essa de estudar em casa. Eu ficava desesperada porque os professores eram muito duros com a gente. Eu chorei muito, mas muito mesmo!”, revela Neris com um ar de nostalgia e nervosismo ao lembrar dos tempos que estudou na BFV, que tem como perfil uma edução rígida, disciplinadora e de base militar.
Vaidosa, à vontade no sofá de casa, com uma flor vermelha entres os cabelos, ela praticamente não para de falar. Esbaforida, de pensamento rápido e preocupadíssima em se fazer entender, a impressão que dá é que bota sempre o coração na boca e – sem dúvidas – fala com muita paixão sobre todo o período que frequentou “o melhor laboratório da minha vida”, como ela se refere aos tempos de banda.
Neris ficou órfã de pai aos 14 anos e em detrimento disso a família passou a ter dificuldades financeiras graves. Foi aos 17 que uma mudança grande aconteceu em sua vida. Teve que trocar a escola particular por uma pública. Foi quando entrou no Colégio Municipal José Firmino da Veiga e por conta disso as coisas começaram a entrar nos trilhos. “Assim que me matriculei minha mãe disse pra eu escolher entre fazer parte do grupo da quadrilha ou ingressar na banda. Dança e música são minhas duas paixões, mas optei pela música. A partir daí tudo mudou pra mim”.
Quando Neris fala sobre laboratório de vida ela não está exagerando, pois foi no Firmino que ela se percebeu como cidadã, “Por conta da história do meu pai, de passar muito tempo cuidando dele, eu era muito dispersa, desconcentrada, não sei explicar… hoje consigo conversar, parece uma besteira isso, mas conseguir responder essas perguntas é uma grande vitória pra mim, sabe?”, completa Neris se referindo ao desempenho dela em concatenar ideias na nossa entrevista. Seria o caso de uma alguma incapacidade cognitiva abrandada pelo contato com a música? Fico a me perguntar.
Neris fez o curso de bacharelado em trombone na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e, por conta disso, teve a oportunidade de conviver com pessoas mais experientes e tomou a decisão de fazer um curso superior em pedagogia para compreender as teorias e práticas que foram implementadas posteriormente no processo pedagógico musical. Esse novo conhecimento também ajudou ainda mais a entender o trabalho dos maestros Flávio Cassimiro e Jozias Vasconcelos, “Eu achava que Flávio não gostava de mim, eu ficava realmente confusa, não conseguia de fato entender a proposta dele, mas depois que comecei a estudar pedagogia minha impressão mudou”.
A partir dessa espécie de despertar Neris agradece a forma “carrasca” como era tratada nas aulas e reconhece que o professor foi um ponto primordial na transição da “menina bandoleira quase marginal” para uma pessoa focada no estudo da música e com perspectivas profissionais. Foi o próprio maestro que deu o aval para que ela alçasse posteriormente vôos profissionais mais ousados, como estudar harmonia, trabalhar com artistas locais e nacionais, e produzir arranjos para gravações de discos.

Na época de Neris a missão da Banda Firmino da Veiga era ganhar prêmios e o processo metodológico era voltado para isso, “Como era uma banda com mais de 100 pessoas, com esse jeito ele tinha todos na palma da mão, não queria nem saber”, explica e complementa orgulhosa “A gente ficava uma hora no sol, não podia nem piscar, nem mexer o pé… e ficava até o final, ninguém chiava não”. Ao ser questionada sobre o processo de ensino da banda já que a utiliza como objeto de estudo em suas incursões acadêmicas, Neris foi categórica: “Não mudaria nada, quem for pra produzir produziu e quem não aguentou… bem, nem todo mundo aguenta uma pressão psicológica assim”. Para logo depois admitir, “Para mim foi maravilhoso como pra outros meninos também, mas eu sei que faltou uma organização pedagógica… era um formato tão antigo que eles já vinham produzindo e dava resultado que assim seguiram em frente”.

Porém hoje, segundo a mesma, “as coisas na Banda” são levadas com bem menos pressa, pois sem a urgência das competições um novo horizonte de espaço-tempo para as práticas se abriu, “Hoje eles tão mais preocupados com a preparação dos alunos para serem músicos profissionais, com mais aula teórica, canto e coral”, contemporiza para logo depois suspirar como se revisitando em pensamento um passado não tão distante que, de fato, mudou a sua vida.