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CAÇADORES DE MEMÓRIAS

Por Aline Feitosa e Renato L. / Imagens de Beto Figueroa

Resgatar a história de duas bandas centenárias como a Curica e a Saboeira é uma verdadeira aventura. Falta de acervos, pesquisas escassas, omissões da imprensa: a sina que persegue aqueles que buscam revisitar a trajetória dos que fazem a cultura popular se repete aqui também. Para mergulhar no passado, dependemos quase exclusivamente daquilo que ficou marcado a ferro e fogo na fala do povo. É a memória oral que nos serve de guia, por exemplo, até o distante ano de 1848, marco de fundação (apesar da ausência de atas ou documentos do tipo para comprovar o acerto da data) da banda musical que, pouco depois, seria batizada como Curica. No dia 25 de novembro do ano seguinte, nascia a Saboeira e, junto com ela, uma rivalidade que se estende até os tempos de hoje.
Do reino das lendas não escapa nem mesmo as denominações das bandas. O da mais antiga teria surgido quando seu fundador, o português José Conrado de Souza Nunes, se deslocava com os músicos do consistório da Igreja do Amparo para a Rua Direita (hoje Avenida Marechal Deodoro da Fonseca). Uma solteirona convicta que morava no trajeto, espantada com o ritmo da polca executada, teria afirmado para suas escravas que aquilo parecia só repetir “curi-cá-cá”, remetendo, quem sabe, ao pássaro de cor verde e canto fino, da família dos papagaios, que leva o mesmo nome da banda. Saboeira, por sua vez, também não escapa às incertezas: ora o batismo se dá por conta de um saboeiro (árvore cujo fruto, quando friccionado, produz uma espuma) na frente de sua sede, ora a explicação vem da falta de uniforme dos músicos e da necessidade de lavar com extremo cuidado as roupas caseiras levadas para as apresentações.
De certo mesmo, nesses anos inaugurais, temos apenas a profunda ligação das duas bandas com o cenário político local. Goiana também assistia ao FlaxFlu, clássico carioca que dominou as disputas da longa fase monárquica de nossa história. De um lado, o Partido Conservador. De outro, o Liberal. Cada um agrupado em torno de uma família da oligarquia da região. Para arregimentar os comícios e quermesses, era fundamental usar aquela que era a principal fonte de lazer artístico nas cidades brasileiras da época, a banda de música. Curica nasceu sob influência dos conservadores, enquanto os liberais deram seu aval a Saboeira. A depender de quem estivesse no poder, a vida ia do céu ao inferno para os músicos e simpatizantes. Na lendária visita de D. Pedro II ao município, por exemplo, em 1859, quem fez as honras da casa ao imperador foram os músicos de José Conrado de Souza Nunes, integrados à guarda nacional. Se os ventos mudassem, no entanto, o ostracismo era o destino certo de quem ontem ganhava as benesses do estado e da sociedade.
A chegada da República só mudou as siglas usadas pelas famílias oligárquicas para disputarem os espaços de poder. Década após décadas, as bandas de música foram mobilizadas em prol dos interesses dos clãs da região. A rivalidade, no entanto, não ficou restrita às elites e se estendeu por todas as camadas da população. Aqui, voltamos ao terreno das lendas, com narrativas sobre como Saboeira, por exemplo, foi proibida de tocar numa procissão, seguida, anos depois, pelo veto às apresentações após 18 horas. Ou, com um toque mais sangrento, como um de seus maestros esfaqueou um maestro da Curica por este ter roubado uma partitura até então exclusiva da concorrente. Eram comuns, ainda, as brigas nas ruas quando os trajetos dos músicos se misturavam, com os xingamentos de praxe. O fato é que, até hoje, mesmo amenizada, a rivalidade persiste: quem é Curica, tem orgulho das cores verde e vermelho, inspiradas na bandeira da pátria de origem de seu fundador. Os de Saboeira não se fazem de rogado e respondem com o amor pelo azul e branco, cores ligadas ao Partido Liberal ou, como querem alguns, ao sabão e a limpeza por trás de seu batismo.

1_Seu Hermínio Pereira, 80 anos, o mais antigo músico vivo da Saboeira

Lenda ou não, o fato é que cada banda exibe com prazer os feitos de sua história secular. Como o primeiro lugar de Saboeira, em 1954, no Concurso Salve a Retreta, promovido pela Argus Industrial e Emissoras Associadas. Ou a participação da Curica no filme A Banda, inspirado na música homônima de Chico Buarque. Ou seus simpatizantes ilustres, como Getúlio Vargas e Flores da Cunha (Curica) e Agamenon Magalhães e Barbosa Lima Sobrinho (Saboeira). Ou, mais recentemente, o título de Patrimônio Vivo de Pernambuco, recebido pela Curica em 2002, a primeira banda musical do estado a merecer esse reconhecimento.
Junto às goianenses Curica e Saboeira, fazem parte de uma história bem próxima as demais filarmônicas da Mata Norte, parte da tradição e que formaram milhares de músicos para o mundo: 22 de Novembro (Paudalho), 28 de Junho (Condado), A Revoltosa e Capabode (Nazaré da Mata), Santa Cecília (Limoeiro), Pé de Cará e Euterpina (Timbaúba), 15 de Junho (Itaquitinga e 16 de Agosto (Aliança). Enquanto esperam para serem registradas com mais acuidade pelas instituições de pesquisa e preservação da memória, esses patrimônio vivos e seus momentos gloriosos permanecem acesos na fala do povo. São eles que alimentam essa paixão que o tempo não parece diminuir e que se projeta com alegria e vigor para as próximas décadas.

| TRADIÇÃO E MUDANÇA

É difícil viver em Goiana e não se envolver de alguma forma com a rivalidade entre Curica e Saboeira. É difícil, também, não carregar o amor por suas cores por toda a vida. Uma coisa, no entanto, une aqueles ligados ao vermelho e verde com os que adotam o azul e branco: todos carregam uma profunda paixão pela música. É o caso, por exemplo, do trompetista Edson Júnior da Silva e da gestora ambiental e pesquisadora Hevelyne Figueirêdo. O primeiro foi reeleito para o cargo de presidente da Curica e chegou na adolescência a tocar na Saboeira, “só para conseguir um dinheiro no carnaval e poder comprar meu instrumento, que na época a Curica não tinha. Instrumento na mão, voltei para a minha banda de coração”, conta ele aos risos. A segunda, apesar de não fazer parte da diretoria de Saboeira, é um dos principais nomes por trás da banda nesse novo milênio. Desde criança, os dois são apaixonados pelos arranjos e instrumentos que os músicos exibem nas apresentações pelos coretos, ruas e clubes da cidade.
Essa paixão permitiu que ambos acompanhassem de perto uma tensão criativa que marca a cultura popular, incluindo a música, desde sempre: o complexo jogo entra a tradição, com suas exigências de fidelidade ao passado, e a modernidade, exigindo passagem para o aqui e agora. Cada detalhe da estrutura artística e organizacional das bandas carrega a marca dessa fricção permanente. É o caso, por exemplo, da figura do maestro: “até pouco tempo”, conta Hevelyne, “nós tínhamos os chamados ‘mestres de banda’, pessoas como o lendário Assuero Alves da Silva, de Saboeira, que, além da regência, acompanhavam cada detalhe da vida da instituição e de seus integrantes. Eram suas esposas, por exemplo, que costuravam os fardamentos. Hoje, a figura do maestro se restringe ao aspecto puramente musical”.
Mudou, também, a faixa etária dos músicos. Se antes tocar em uma das bandas era a ocupação secundária de padeiros ou alfaiates, agora são os estudantes das escolas de música mantidas por Curica e Saboeira que preenchem suas próprias fileiras. “Dos nossos 52 músicos”, informa Edson Júnior da Silva, “apenas 2 ou 3 não vieram da escola. Nós temos, agora, uma coordenadora pedagógica, Cristian Silva, que por acaso é minha irmã, e isso ajudou a aumentar o tempo de permanência das crianças com a gente, a integrar seus pais no nosso cotidiano”. As escolas são gratuitas e os alunos também recebem de graça os instrumentos. Hoje, a Curica conta, por exemplo, com 78 alunos nas suas salas de aula.

2_Edson Júnior da Silva, presidente da Curica

Detalhe importante: aumentou bastante a presença feminina no corpo musical. “Até pouco tempo, as mulheres tinham um papel quase figurativo, limpavam a sede, costuravam, essas coisas. Hoje, metade da banda é formada por meninas”, conta Cristian, irmã de Edson. “Lembro da minha infância sentada na janela, sonhando em um dia poder tocar, como fazia meu irmão. Mas meninas na banda não eram permitidas. Até hoje, não podemos negar, o machismo é recorrente. Não é fácil quando tenho que representar meu irmão em reuniões da Associação das Bandas Filarmônicas da Mata Norte. Muitas vezes ,os representantes das outras bandas, todos homens, me olham de lado. Ainda muita coisa a ser construída”, conta ela.
Instrumentos e repertório também carregam essa dinâmica antigo versus novo. Enquanto o piano e o violino eram reservados no passado para as elites, os instrumentos de sopro ficavam nas mãos das classes populares. Traço característico das bandas filarmônicas, eles, no entanto, se somam hoje à sanfona, baixo elétrico e até mesmo alfaias, dependendo do repertório a ser executado. Nesse campo, os tradicionais dobrados militares dividem espaço com composições populares contemporâneas, como estratégia para atrair o público, especialmente o mais jovem. É aí que aparecem desde sucessos da Nação Zumbi até peças de maestro como o conterrâneo Duda, Ademir Araujo e Guedes Peixoto, além de arranjos e composições, no caso da Curica, dos músicos mais jovens. É a receita para jogar para o futuro a bela tradição musical das bandas de Goiana.

| QUEM SÃO AS PESSOAS DESTE LUGAR?

Goiana, terra das bandas sesquicentenárias Curica e Saboeira. Também conhecida como berço dos caboclinhos, do coco de roda e do guaiamum gigante. É a única cidade da Zona da Mata Norte de Pernambuco declarada patrimônio histórico nacional. Surgida de uma simples freguesia há 445 anos, teve protagonismo em confrontos como a Batalha das heroínas de Tejucupapo (1646), Revolução Pernambucana (1817), Confederação do Equador (1824) e Revolução Goianense (1825). Vendo assim, o que mais poderia acontecer de transformador nessa cidade interiorana de Pernambuco? Muita coisa. A começar pela instalação de um dos maiores e modernos polos industriais do país. No lugar onde havia cana-de-açúcar, principal nicho econômico do local até o século passado, usinas de concreto ocupam a paisagem na entrada da cidade, às margens da recém reformada BR-101. Em Goiana se vê gente de todo lugar. As poucas quatro pousadas da cidade estão ocupadas diariamente pelas empresas, que usam as hospedarias como residências para os funcionários, que ocupam as mais de 9 mil vagas de empregos (iniciais) oferecidas no começo do ano pelo polo automotivo Jeep, apresentada com pompa como “a mais moderna planta produtiva da Fiat Chryster Automobiles (FCA) no mundo. Sim, os últimos cinco anos correram bem depressa. E agora começa uma nova história.
Ao passear pelas ruas, redescobre-se uma cidade de interior, com seu casario secular tombado e que mantém nos mais velhos a tradição e costumes sociais. Tudo com tempo contado, prestes a sumir junto com a memória humana. Goiana vive o início de um novo tempo, sem garantias de que patrimônios imateriais que fizeram da cidade um dos mais prestigiados polos socioculturais de Pernambuco sobreviva ao “tal desenvolvimento”.
“Estamos vivendo numa cidade de interior, mas que já carrega todas as mazelas de qualquer cidade grande: drogas, prostituição e especulação imobiliária”, diz entristecido Seu Hermínio Pereira, 80 anos, o mais antigo músico vivo da Saboeira. Ao lado de sua mulher Marlene, ele teima em todo fim de tarde sentar-se na calçada com uma xícara de café para conversar com os vizinhos. “O que fazia de Goiana uma cidade cultural era exatamente isso: a conversa com as pessoas. Aqui todo mundo se conhecia, se falava. Agora, a gente anda pela cidade e não conhece os “forasteiros”, fala Dona Marlene sobre os trabalhadores que saíram de suas cidade e países para construir carreira no polo industrial de Goiana.
Se por um lado, a cidade cresce economicamente com investimentos e nova população de imigrantes, os moradores antigos saem de suas casas para cidades vizinhas como Condado, aproveitando a renda do alto custo dos alugueis. E os “fazedores” de cultura, mestres populares e brincantes, se perdem no meio da poeira que levanta. “Muitos conhecidos nossos, que tinhas seus caboclinhos, cocos de roda e maracatus, foram trabalhar nas obras das fábricas. Agora, com as indústrias prontas, levantadas, não há mais espaço para eles. Deixaram suas “brincadeiras” de lado, por mais de dois anos, e agora não veem mais forças para reergue-las”, analisa Joelma de Lima, 43, secretária e conhecida como a “guardiã” da Saboeira.

3_Saboeira em desfile na Rua Direita, em Goiana
| O FUTURO JÁ CHEGOU

Curica e Saboeira já viveram juntas muitas aventuras. Nasceram quando o Brasil ainda tinha um imperador e a maior parte do trabalho era feito por escravos. Sobreviveram a duas guerras mundiais. Conheceram as novidades da polca, do jazz, do baião, até chegar ao maracatu atômico da Nação Zumbi. Hoje, olham confiantes para o futuro, dispostas a encarar outras tantas décadas firmes na paixão pela música e por Goiana. Os desafios, no entanto, são muitos.
Até pouco tempo, as duas bandas dependiam de seus laços políticos para sobreviver. A facção oligárquica no poder ou fora dele que a patrocinava respondia pela maior ou menor prosperidade. Essas amarras, hoje, são bem mais frouxas. “Não temos vínculos partidários”, faz questão de destacar o presidente da Curica, Edson Júnior da Silva. “O que queremos fazer, agora, é política cultural. Pressionar o município, por exemplo, a criar um Conselho Municipal de Cultura e um Fundo Municipal de Cultura, para escaparmos da chamada política de balcão”. Sua banda saiu na frente nesse processo de romper com as velhas correntes.
Transformada em Ponto de Cultura, a Curica sobrevive com o que recebe mensalmente como Patrimônio Vivo de Pernambuco, título recebido em 2002, com as receitas dos projetos aprovados em editais e, por último, mas também importante, com a contribuição do seu corpo de sócios.
Saboeira corre contra o relógio para também se adaptar aos novos tempos. “O desafio, não só para a Saboeira, como para outras bandas da região”, conta a pesquisadora Hevelyne Figueirêdo, “é encontrar pessoal capacitado para formatar os projetos destinados aos editais, tanto os locais, como os nacionais”. Hoje, a banda sobrevive basicamente com as receitas do aluguel de sua sede para festas e shows.
A chegada do polo industrial a Goiana, analisada por muitos como a panacéia para todos os males da cidade, é vista com ceticismo por ela: “Não muda muita coisa. Em geral, esse pessoal não investe em coisas consideradas velhas”. É uma descrença compartilhada também por seu conterrâneo à frente da Curica: “Nós tivemos algumas reuniões promissoras, eles queriam conhecer os mecanismos de funcionamento das duas escolas de música. Mas aí veio uma proposta para fundir a nossa com a da Saboeira e a gente não aceitou”, diz Hevelyne, que assiste de perto sua banda do coração sobreviver do aluguel do clube para festas. “Todo tipo de festa acontece aqui. É muita “bagaceira”. São poucas as vezes que nos pagam o aluguel cheio, em torno de R$ 1 mil. Mas também muitas vezes nos vemos pressionados a alugar o espaço por R$ 300. Porque antes pouco do que nada, não é? Mesmo assim, ao meu ver, fica mais prejuízo do que lucro, porque o valor pago não garante a manutenção do clube, diz a secretária da Saboeira, Joelma de Lima.
O ceticismo com a Fiat tem como contraponto os sinais de vitalidade que as duas bandas não cessam de emitir. A Curica, por exemplo, tem, agora, além da banda principal, uma filial jovem, reservada para os alunos mais novos, onde as inovações em termos de arranjo e repertório encontram mais espaço. “Nosso maior desafio é atrair as novas gerações e perpetuar, assim, a nossa tradição”, enfatiza Edson Júnior da Silva.
Saboeira, por sua vez, ganha em breve o primeiro documentário dedicado a resgatar sua gloriosa história. “Nós sofremos muito com a questão da memória”, conta Hevelyne Figueiredo. “Por isso, preparei esse filme chamado Banda Saboeira – a história que nos contam, um curta-metragem que estreia em breve. Vou ceder à banda o acervo que recolhi e pretendo, também, transpor para um livro o que pesquisei”. É assim, com um olho no passado e outro no futuro, que Curica e Saboeira se preparam para atravessar esse primeiro século do novo milênio.